Animation World Magazine, Issue 3.2, May 1998


Estrela De Oito Pontas: Uma experiência mental em animação

por Marcos Magalhães

Veja aqui um trecho em Quicktime do filme Estrela de Oito Pontas de
Fernando Diniz. © Fernando Diniz.
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Qual a real fronteira entre realidade e imaginação? Nós animadores exploramos freqüentemente este misterioso território, mergulhando em universos totalmente alienados do mundo material aqui fora. Este ir e vir da fantasia para o cotidiano provoca às vezes efeitos semelhantes aos de drogas ou distúrbios mentais, porém nos acostumamos a mantê-los sob o controle da realização artística. Mas existem pessoas para as quais estas linhas fronteiriças se desvaneceram, perdendo o sentido e importância que têm para a maioria.

Durante seis anos ajudei Fernando Diniz, 79, a realizar Estrela De Oito Pontas, seu primeiro filme de animação, que em 1996 ganhou três prêmios no Festival de Gramado, o principal festival de cinema do Brasil, e também o prêmio de melhor animação no Festival de Havana. Fernando vive há mais de cinqüenta anos internado em um hospital psiquiátrico, e foi lá dentro que aprendeu a desenhar, pintar e modelar, tornando-se um dos mais conceituados artistas plásticos do Rio de Janeiro. Trabalhar e conviver com este artista foi uma experiência profunda e marcante. Precisei reformular muitos de meus conceitos como animador, para poder entender os padrões totalmente diferentes de tempo e espaço vividos intensamente por Fernando. Ao contrário do que poderia esperar, conheci um artista totalmente dedicado, concentrado e consciente de seus objetivos. Pode parecer estranho, mas seu incondicional amor à pesquisa e à experimentação me fizeram recordar o mestre Norman McLaren, que conheci em 1981 quando estagiei no National Film Board of Canada.

O filme, construído à maneira de um "show-reel", traz à tela algumas das principais idéias exploradas por Fernando, abrindo uma janela para o seu universo. Foi muito gratificante comprovar que a animação pode ser um meio de comunicação eficiente para pessoas com uma percepção tão fora do normal.

Fernando é de origem pobre e humilde, mas quando menino freqüentava casas da alta sociedade levado por sua mãe, costureira especializada em consertos de vestidos de alta-costura. Deste período herdou o gosto pelo luxo e sofisticação, e também o amor não correspondido por Violeta, uma menina branca e rica. O jovem Fernando pôs em sua cabeça a idéia determinada de conquistar Violeta. Para isto mergulhou nos estudos por longos anos, tentando tornar-se um rico engenheiro.

Esse elaborado desenho de um *(compasso) de
6 pontas é parte do filme de
Diniz, Estrela de Oito Pontas.
© Fernando Diniz.

Um dia, já homem feito, Fernando descobriu que sua amada estava comprometida com outro rapaz, branco e rico. A desilusão o fez abandonar os estudos e se trancar incomunicável. Seu alívio eram os banhos de mar que tomava, solitário, na praia de Copacabana. Até que, num domingo de sol, Fernando não percebeu as outras pessoas na praia escandalizando-se por ele estar completamente... nu! A polícia foi chamada e Fernando reagiu quando o quiseram levar preso. Foi levado então para um manicômio, e sua vida fora dos muros terminou aí. Classificado como louco, foi isolado de sua família e tratado com drogas e eletrochoques, como usual na época.

O que tornou a história de Fernando diferente da de tantos outros doentes mentais crônicos foi o encontro com uma pessoa muito especial: Dra. Nise da Silveira. Admiradora das idéias de Jung, e convencida de que os tratamentos convencionais para doentes mentais eram desumanos e ineficientes, a Dra. Nise revolucionou um tradicional hospital público ao criar ateliers de artes plásticas. Em 1952, fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, em cujas oficinas os internos materializavam suas impressões e sentimentos em telas, desenhos e esculturas. O Museu floresceu como um fenômeno para a arte e a ciência. Os resultados das oficinas permitiam à equipe da Dra. Nise desvendar com clareza surpreendente os processos mentais de pessoas com pouca ou nenhuma expressão verbal. Ao encontrar o calado e retraído Fernando, a Dra. Nise convidou-o a freqüentar os ateliers. Fernando reencontrou lá a sua escola e nela mergulhou de corpo e alma. Anos mais tarde, ele diria: "mudei para o mundo das imagens".

Embora não fosse propósito da doutora avaliar a qualidade artística dos trabalhos, os críticos de arte conferiram a Fernando e alguns de seus colegas o status de artistas geniais. A reputação do Museu, após décadas de bem sucedidas experiências, atraiu a atenção do cineasta Leon Hirzman, que realizou em 1986 um documentário de longa-metragem chamado "Imagens do Inconsciente". A vida e a obra de Fernando Diniz foram retratadas, e seu contato com a equipe de filmagem despertou nele uma obsessão: fazer cinema. Como não possuía câmera nem filme, Fernando passou a desenhar fotogramas, um após o outro. Às vezes eram feitos separadamente num mesmo desenho, à maneira de um "storyboard". Outras vezes ele pintava a óleo ou pastel em inúmeras camadas, criando um "fotograma" escondido sob o outro, num "filme" que só ele assistia.

Quando encontrei Fernando pela primeira vez, em 1988, ele trabalhava nestas séries de desenhos. A equipe do Museu queria registrá-los em filme e fui convidado a avaliar a possibilidade de documentar este trabalho com uma câmera de animação.

Ao ver os desenhos de Fernando Diniz, percebi estar diante do trabalho de um animador. Belos "lay-outs" de animações, uns abstratos e geométricos, outros com motivos figurativos, todos com alta qualidade plástica e excelente domínio de cores e formas.

Fernando me encantou também por sua atitude: foi muito difícil entender o que dizia, pois ele não tinha nem um dente na boca, mas mantinha um olhar curioso e um permanente bom-humor, sempre tentando explicar seu trabalho e aprender coisas novas.

Fernando Diniz. Foto by Claudia Bolshaw.

Minha experiência como professor de animação indicava um "aluno" muito especial, apesar das dificuldades de comunicação. Fernando me convenceu da sua capacidade em dirigir ele mesmo seu processo de criação. Naquele mesmo dia decidi me empenhar em ajudá-lo a realizar suas animações em filme, iniciando um projeto que duraria cerca de seis anos até completar Estrela de Oito Pontas.

O primeiro passo foi dar a ele uma mesa de luz, e explicar-lhe que a partir de então teria que fazer os desenhos em folhas separadas e furadas. Arranjei também pontas de filme e o empréstimo da câmera de animação 16mm do estúdio de animação da Funarte.

Fernando me entregou suas primeiras cenas após poucas semanas. Ele preenchera totalmente, com desenhos cheios de cor, as mil folhas que lhe entregara. Apesar de entender a função da mesa de luz e dos registros, Fernando não usara nem um, nem outro. Mas ao "flipar" a animação vi que ela funcionava muito bem. Ele preferia usar apenas sua memória visual como meio de registro, tomando as margens do papel como referência. Apesar da minha insistência, raramente utilizou pinos ou transparências até o final do processo.

Toda quarta-feira encontrava-me com Fernando para examinar suas novas cenas (500 desenhos por semana) e prepará-las para a filmagem. As cenas costumavam ter temas bem definidos, e eu incentivava Fernando a criar títulos para elas.
Algumas eram bem fáceis de entender, como uma série de animais ou pessoas praticando esportes. Outras eram riscos geométricos incompreensíveis, às vezes escurecendo completamente o papel.

Segundo a observação da Dra. Nise, estas variações traduziam o seu estado psíquico: em períodos de depressão, ele recorreria a imagens geométricas como uma forma de reorganizar seu estado emocional. Sentindo-se seguro e cercado de afeto, Fernando faria desenhos mais orgânicos. Comprovamos isto várias vezes, principalmente na última seqüência do filme: a cavalgada de um personagem por um longo cenário.

Esta cena foi toda feita em uma mesa de animação dos estúdios da Funarte, e durante o trabalho Fernando estava sempre acompanhado e conversando animadamente enquanto desenhava. Foi a única cena em que ele usou os pinos profissionais de registro e a mesa de luz, e a cena tem elementos autobiográficos, com paisagens e personagens presentes em fases anteriores de sua pintura.

Costumávamos conversar longamente sobre os desenhos. Ele criara um sistema próprio de classificar as formas geométricas, e explicava isto em sua linguagem confusa. Custei a perceber que quando ele falava de abacaxi, peixe, pão, melancia, etc. estava se referindo à forma destes objetos e não ao seu significado real.
Um dia ele me trouxe uma cena que insistia em chamar de "a garrafa". Olhando os desenhos um por um achei que ele havia se enganado, pois não conseguia identificar garrafa nenhuma. Como ele insistia no título, filmei a cena assim mesmo. Quando projetamos o copião fiquei surpreso ao perceber finalmente, vibrando por entre vários rabiscos, a silhueta de uma garrafa. Desde este dia ficou claro que Fernando tinha intenções definidas e conseguia dominar a técnica para exprimi-las.

Fernando não demonstrava muita surpresa ao ver os copiões. Sentado sempre na primeira fila, às vezes ficava mais interessado em estudar o rápido piscar dos números luminosos de um contador de pés sob a tela. Percebi que ele tinha uma forte miopia, mas se recusava a usar óculos. Era como se já tivesse visto o suficiente ao fazer os desenhos, não se importando por não poder rever suas animações com nitidez. Mas ele adorava comentar e discutir o significado de tudo o que havia produzido, e sobretudo receber palmas e elogios por seu trabalho.

O obscuro e estilo deste desenho de uma pessoa
em um cavalo, ilustra a tendencia geometrica
que fernando utiliza para reorganizar o seu estado
emocional quando se sente deprimido.
© Fernando Diniz.

O título do filme vem do tema preferido de Fernando Diniz. Claudia Bolshaw, designer que estudava o trabalho de Fernando e assumiu a produção do curta nos últimos dois anos, escreveu uma tese de mestrado na qual decifra o significado da Estrela de Oito Pontas. A Estrela, para Fernando, é um sistema gráfico que organiza o espaço, e de onde nascem todas as suas figuras. A estrela de oito pontas é representada por uma cruz e duas diagonais, como a bandeira da Inglaterra. Quase sempre Fernando começa a desenhar traçando estas linhas básicas. São elas que o guiam para manter a proporção e o registro dos movimentos e formas que brotam de sua animação. Em quase todas as cenas do filme podem-se ver as linhas da "estrela" definindo o espaço. A Estrela é a salvação de Fernando, o sistema que lhe proporciona domínio e segurança. Graças às suas explorações pela arte, Fernando não precisa tomar nenhuma medicação psíquica há décadas. Ele tem uma vida produtiva e integrada à comunidade, e só continua vivendo dentro do hospital por não ter mais família ou alguém que possa cuidar de sua vida cotidiana.

Um cavalo de cor diferente. Quando ele se sente seguro e rodeado por
pessoas queridas, Fernando desenha com um estilo mais figurativo, como por
exemplo, esta imagem de uma pessoa montada em um cavalo que corre.
© Fernando Diniz.

O sucesso de Estrela de Oito Pontas no Brasil trouxe uma renovação do interesse pela obra de Fernando Diniz e pela questão do direito de pessoas de diferentes estados mentais a participar de nossa sociedade. Fernando continua vivendo em um hospital, pintando quadros e preparando cenas para outros filmes de animação. Fernando também toca música, no piano e na gaita harmônica, e algumas composições suas foram incorporadas à trilha musical do filme. A venda de cópias em vídeo de Estrela de Oito Pontas contribui para as suas despesas pessoais de manutenção no hospital.

Distrib:
CTAv - Funarte
Av. Brasil, 2482
20.930-040 Rio de Janeiro Brazil
E-mail: decine@funarte.gov.br (Funarte)

Marcos Magalhães é cineasta e professor de animação, e também um dos diretores do Festival Internacional Anima Mundi, no Brasil.

Nota: Os leitores podem contactar qualquer contribuidor da Animation World Magazine enviando e-mail ao
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