Contato em Havana

O Programa do Festival Internacional do Novo Cinema Latino-Americano.O Festival Internacional del Nuevo Cine Latino-americano mais uma raz para se visitar Cuba no inio de Dezembro. Em sua 19 edio, o Festival de Havana o maior evento cinematogrico inteiramente dedicado ao cinema latino, sendo muito prestigiado junto aos produtores, diretores e artistas destes paes. Ree longas, mias e curtas metragens de fico, documentios, um concurso de cartazes e de roteiros e, at last but...

O Programa do Festival Internacional do Novo Cinema Latino-Americano.

O Festival Internacional del Nuevo Cine Latino-americano é mais uma razão para se visitar Cuba no início de Dezembro. Em sua 19ª edição, o Festival de Havana é o maior evento cinematográfico inteiramente dedicado ao cinema latino, sendo muito prestigiado junto aos produtores, diretores e artistas destes países. Reúne longas, médias e curtas metragens de ficção, documentários, um concurso de cartazes e de roteiros e, at last but not at least, filmes de animação. Além do festival, Cuba, em si, é a outra atração que vale a visita. Não só por suas belezas naturais e arquitetônicas, mas, principalmente, por seu povo e seu modo de vida, baseados em valores bastante diferentes dos nossos.

Um Festival com Público

Durante as duas semanas do festival, os hotéis de Havana ficam lotados e a população da cidade se mobiliza para acompanhar as sessões competitivas e retrospectivas. Em Cuba, o cinema ainda é a grande atração, como era no Brasil nos anos 60, quando os preços eram mais razoáveis, as salas de exibição maiores e mais requintadas e a competição com a televisão não era tão acirrada. Aqui, os preços dos ingresso são subsidiados pelo governo e custam o equivalente a US$0.35, sendo que, com exclusividade para os cubanos, é possível comprar um passe para todas as sessões do festival por cerca de US$0.94.

As salas de cinema de Havana são antigas. Aliás, quando se chega a Havana, a impressão que se tem é a de se ter voltado trinta anos no tempo; as construções são as mesmas dos anos 50 e 60. No trânsito, é enorme a quantidade de veículos com 30, 40 é até 50 anos de idade, incluindo incríveis Chevys 57 super bem conservados. O mesmo se passa com os cinemas que, em sua maioria, ainda são aquelas portentosas salas de espetáculos de 1,000 a 1,500 lugares e tela gigante com cortina que se abre antes da sessão (e eu pensei que nunca mais ia ver isto...). O som é razoável, porém a qualidade de projeção podia ser melhor.

O charme do velho mundo em Havana é visto nesta foto do Cinema Prayet. Foto de cortesia de e © Cesar Coelho.

A televisão cubana, que é estatal, tem uma programação bastante limitada. Funcionando apenas algumas horas por dia, sua maior atração são as novelas brasileiras que são uma febre entre toda a população e param o país todos os dias na hora dos episódios.

Assim, o cinema é um grande programa e a população comparece em massa, fazendo filas kilométricas nas portas dos cinemas e lotando todas as sessões. Com um nível cultural muito elevado, os cubanos acompanham os filmes com um senso crítico apurado, se envolvendo na trama dos filmes, aplaudindo, discutindo e opinando durante a projeção. Começando no belíssimo Hotel Nacional, sede do festival, toda a cidade se mobiliza em torno do festival e muitos tiram férias nesta época para assistir a todas as obras.

Os Filmes de Animação

Na sessão de animação, embora com pouca quantidade de filmes, foi possível se traçar um painel da atual produção latino-americana. Da Argentina, estavam na competição o curta Tanto te gusta esse hombre / dir: Vicky Biagiola & Liliana Romero, uma animação em lápis de cor sobre papel usando as diferentes texturas destes materiais como recurso narrativo, e Dibu-La película/dir: Carlos Olivieri & Alejandro Stoessel, que era o único longa metragem de animação no festival. Tecnicamente bem feito, com personagens animados contracenando com atores, o filme apresenta um casal que tem quatro filhos: três de carne e osso e o quarto é um cartoon.

Noche/dir: Tomás Welss, representou o Chile no festival. Utilizando papel e lápis de cor numa animação bastante solta e expressiva, embora um pouco longa, o filme mostra uma noite de festa, dança e sensualidade.

Com seis obras na competição, o Brasil, ao lado de Cuba, também com seis filmes, foi a maior representação no programa de animação. Hello Dolly! e Kaos, ambos dirigidos por Daniel Schorr, são filmes curtos de 1 min cada, que têm como tema a mudança do milênio. Também de Daniel, Recital, usa uma técnica original: os desenhos foram realizados em papel e lápis, filmados em B&W, e a cor foi aplicada diretamente sobre o negativo pelo autor.

Recital de Daniel Schorr. © Daniel Schorr.

A técnica também é o personagem principal do filme de Telmo Carvalho: Campo Branco. Mímicos, filmados quadro a quadro, copiados em papel fotográfico, recortados e aplicados em acetato, atuam em cenários de pintados e contracenam com personagens animados, para contar a luta do povo do nordeste brasileiro contra a seca. Já em Uma Casa muito engraçada, sua diretora, Toshie Nishio, usa a simplicidade para ilustrar uma música infantil muito conhecida no Brasil. Finalmente, Ninó/dir: Flávia Alfinito que era o único filme realizado em massa de modelar no festival. Dos seis filmes cubanos, cinco fazem parte da série Filminutos/dir: Jorge Valdés & Mario Rivas. Esta série, já com 40 episódios, é composta de filmes de 5 minutos cada, com várias gags de 30 segundos a um minuto e são um enorme sucesso em Cuba. Diferentemente dos Filminutos que são realizados na tradicional cel-animation, En la tierra de Changó/dir: Mario Rivas, usa várias técnicas numa narrativa sofisticada sobre deuses e mitos de origem africana tão comuns em Cuba quanto no Brasil. A Industria Cubana de Animação Todas as obras cubanas são produzidas pelo ICAIC, que é a companhia estatal responsável pela produção cinematográfica. Há mais de vinte anos, o ICAIC mantém ativo o estúdio de animação num agradável prédio de 3 andares com salas de animação, arte-final, filmagem e produção. O que lhes falta em recursos e tecnologia - em todo o estúdio, eu só vi um computador que é usado para pencil-test - os cubanos compensam com improvisação e criatividade: a partir de uma câmera de animação Oxberry, os técnicos do ICAIC construíram uma outra acrescentando mais alguns recursos. Os filmes são produzidos por uma equipe numerosa cuja a hierarquia é bem rígida: o iniciante, após um período de estágio, começa como in-betweener, após algum tempo, torna-se assistente, depois animador e, assim, leva-se muitos anos até se tornar um diretor ou supervisor de animação. Porém, deve-se ressaltar o bom trabalho de treinamento realizado pelo estúdio, cada artista é também um professor três ou quatro alunos sob sua responsabilidade. Apesar da grave crise econômica que há anos atinge o país, o estúdio de animação nunca deixou de produzir seus filmes que, como já dissemos, têm excelente repercussão entre o povo. Procurando viabilizar novas produções, o ICAIC vêm buscando prestar serviços em sua especialidade: animação tradicional e pintura de acetato e, atualmente, parte da animação de uma série espanhola é realizada nos estúdios cubanos.

O vencedor do prêmio Coral Negro, Desde Adentro de Dominique Jonard.© Dominique Jonard.

O Grande Vencedor

Por fim, com uma certa dose de suspense, o grande vencedor do Coral Negro: o primeiro prêmio na categoria de animação foi para Desde Adentro/dir: Dominique Jonard, representante do México na competição. A premiação demonstra a preocupação social do festival, valorizando mais o conteúdo que a forma. No filme, menores delinqüentes internos de uma instituição correcional do governo mexicano, contam, usando animação de cut-outs e muita sensibilidade, suas experiências de vida na rua: a convivência com drogas, as guerras de gangues , o abandono e a marginalização. A ingenuidade da técnica e o humor contido na interpretação dos meninos contrastam com a violência implícita no tema, isso só aumenta o impacto causado pelo filme fazendo-o, sem dúvida, merecedor do prêmio.

Agora, sobre a outra atração de Cuba: a sociedade cubana, seu modo de vida, seu lado positivo e seu lado negativo...Isto é assunto para mais alguns artigos e muitas, muitas discussões acaloradas.

Cesar Coelho é animador e co-diretor de Anima Mundi, Festival Internacional de Animação / Brasil.

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